A infância é o período em que as bases do desenvolvimento humano são construídas e isso vai muito além de aprender a ler e a escrever. Cada vez mais, especialistas em educação infantil defendem que a alfabetização emocional é tão essencial quanto a alfabetização tradicional. Nesse contexto, as creches exercem um papel decisivo na formação de crianças mais seguras, empáticas e preparadas para lidar com os desafios da vida.
A psicopedagoga, Graça Gomes usa uma metáfora para explicar que a alfabetização emocional no ambiente da creche funciona como a “raiz de uma árvore”. “Tem que estar bem plantado, pois quando uma criança aprende a identificar e nomear o que sente desde cedo, ela ganha ferramentas que impactarão toda a sua trajetória de vida e escolar. Importante também que as pessoas que fazem parte desse processo sejam agentes reforçadores das palavras corretas e fama as correções de forma leve. Afinal, elas ainda estão aprendendo”, detalha a especialista.

Graça pontua ainda as influências positivas que podem colaborar no processo, chamando atenção para melhorias no comportamento e nos mecanismos de autorregulação. “Crianças que passam por esse processo aprendem que sentir (raiva, frustração, tristeza) é legítimo e tem que ser validado, mas a forma de agir sobre o sentimento pode ser controlada”, explica. A presença na creche também é um marco importante para que a criança desenvolva segurança emocional e autonomia- “A alfabetização emocional gera um ambiente de previsibilidade. Quando o educador valida o sentimento da criança (“Eu vejo que você está triste porque sua mãe saiu”), ela se sente compreendida e segura”, exemplifica.
A psicóloga também faz questão de pontuar os reflexos nas relações sociais. “Ao entender as próprias emoções, a criança começa a reconhecer as mesmas expressões nos outros”, diz. Todo esse autocontrole e conhecimento sobre sentimentos e relações interpessoais traz reflexos extremamente positivos no desempenho escolar. De acordo com a psicopedagoga, o emocional está diretamente ligado ao cognitivo. Ela destaca que um cérebro sob estresse constante ou “sequestrado” por emoções que não sabe processar tem muito mais dificuldade em focar, memorizar e aprender.
Práticas do dia a dia – Quando perguntada sobre quais práticas do dia a dia das creches fazem mais diferença no desenvolvimento emocional das crianças, Gomes explica. “O desenvolvimento emocional não acontece no isolamento; ninguém consegue viver só. Um educador que está calmo e seguro transmite essa regulação para a criança através de suas ações em manter um ambiente saudável e acolhedor. Algumas dinâmicas ajudam a construir essa segurança emocional, como o “Cantinho do Acolhimento” (Não é castigo!). Em vez do antigo “cantinho do pensamento”, crie um espaço de autorregulação com um tapete e almofadas, alguns livros sobre emoções, objetos sensoriais (garrafas de glitter, e bolas antiestresse)”, assinala.
Para a Central das Creches do Brasil, a educação infantil tem o papel de ensinar a criança reconhecer e lidar com suas emoções, sendo um investimento que gera benefícios a longo prazo. Adultos emocionalmente seguros tendem a construir relações mais saudáveis, lidar melhor com frustrações e tomar decisões mais conscientes. Ao promover a alfabetização emocional desde cedo, estamos formando não apenas bons alunos, mas seres humanos mais equilibrados, empáticos e preparados para o mundo.
