Educação infantil para um futuro melhor.

Primeiro, precisamos olhar para a primeira infância

Como reduzir desigualdades? Como ampliar oportunidades? Como aumentar a mobilidade social?

Costumamos buscar respostas para essas perguntas na educação, no mercado de trabalho, no potencial de renda ou na qualificação profissional. Sem dúvida, todos esses temas são fundamentais. Mas a ciência vem indicando há tempos que uma parte importante da resposta começa nos primeiros seis anos de vida. 

Os novos resultados do Atlas da Mobilidade Social mostram por que essa discussão é tão urgente. A atualização, divulgada em julho de 2026, confirma que romper o ciclo das desigualdades continua sendo um enorme desafio no Brasil. Entre os filhos das famílias que estão entre as 25% mais pobres do país, 48% permanecem nesse mesmo grupo quando chegam à vida adulta. Apenas 8,32% conseguem alcançar a parcela dos 25% mais ricos e somente 1,28% chegam à faixa dos 10% de maior renda. 

Se o Atlas mede a persistência da desigualdade entre gerações, James Heckman ajuda a explicar em que momento ela deveria começar a ser enfrentada. A contribuição mais conhecida do vencedor do Prêmio Nobel de Economia é mostrar que programas voltados à primeira infância geram alguns dos maiores retornos econômicos entre os investimentos públicos possíveis. 

Os primeiros seis anos de vida concentram o período de maior desenvolvimento humano. É quando se formam as bases para tudo o que virá depois. Nenhuma outra etapa reúne essas condições com a mesma intensidade. 

É na primeira infância que se estruturam a linguagem, a atenção, a memória, a autorregulação e as habilidades socioemocionais, entre tantas outras capacidades que permitirão a uma criança aprender, construir relações e aproveitar, da melhor maneira, as oportunidades que surgirem ao longo da vida.

Poucas agendas reúnem tamanho consenso científico. Depois de três décadas de pesquisas, as conclusões de Heckman não apenas se confirmaram como foram ampliadas por centenas de estudos em diferentes países e áreas do conhecimento. 

Hoje, economia, neurociência, psicologia, pediatria, educação e saúde pública convergem para a mesma direção: investir nos primeiros anos de vida melhora a aprendizagem, favorece a saúde, aumenta a produtividade, amplia oportunidades e fortalece a mobilidade social. 

Apesar desse consenso, o conhecimento sobre a primeira infância ainda permanece distante da maior parte da sociedade. Pesquisa realizada no segundo semestre de 2025 pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha mostrou, por exemplo, que 84% dos brasileiros desconhecem que esse é o período de maior desenvolvimento humano. Entre eles, a maioria afirma que isso ocorre na idade adulta (41%).

Esse dado ajuda a entender por que continuamos tratando a primeira infância como um tema de interesse quase exclusivo das famílias com bebês e crianças pequenas ou dos profissionais que trabalham diretamente com elas. É difícil transformar em prioridade aquilo cuja importância a maioria das pessoas sequer conhece. 

O Brasil acumulou, nas últimas décadas, importantes avanços nessa agenda. Produziu conhecimento, aprovou leis, estruturou políticas públicas e, mais recentemente, instituiu a Política Nacional Integrada da Primeira Infância, fortalecendo essa estrutura. 

O desafio agora é transformar esse compromisso em realidade: ampliar o acesso a políticas e serviços que apoiem famílias e cuidadores e diminuir a distância entre o que a ciência já demonstrou, o que as políticas públicas reconhecem e o que a sociedade sabe sobre a importância dos primeiros anos de vida. 

O Agosto Verde, Mês da Primeira Infância, colabora com esse esforço. Como acontece com outras campanhas de conscientização, é comum que os “meses coloridos” despertem certo ceticismo. E é verdade que um mês de mobilização, sozinho, não transforma uma realidade tão complexa.

Sua contribuição é outra: criar um momento em que um tema ganha espaço no debate público e aproxima a ciência do cotidiano das pessoas, com o objetivo de ampliar a compreensão de que investir na primeira infância interessa a toda a sociedade. 

Neste ano, o Mês da Primeira Infância reúne mais de uma centena de organizações de diferentes áreas. Não é por acaso. A primeira infância atravessa praticamente todas as agendas. A mobilização reflete uma ideia simples: promover o desenvolvimento na primeira infância não é responsabilidade exclusiva das famílias nem de uma única área do poder público. É um compromisso compartilhado entre família, Estado e sociedade, assim como está na nossa Constituição.  

Sim, boas políticas públicas, em qualquer etapa, continuam sendo essenciais. Mas o começo da vida oferece uma oportunidade única para reduzir as desigualdades antes que elas se aprofundem e fortalecer capacidades que servirão de base para toda a vida. 

Se queremos diminuir desigualdades, precisamos começar pelo começo: fazer com que o conhecimento científico oriente, com a mesma força, o debate público e as escolhas da sociedade. É um passo fundamental para construir um país mais justo desde o início da vida. Cuidar da primeira infância é, sim, cuidar do mundo.

Com informações do site “Nexo Jornal”.

FAQ - Perguntas Frequentes

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