Em uma cidade onde a identidade, a ancestralidade e a matriz africana constituem a própria base da cultura local, a educação antirracista não pode esperar os anos escolares mais avançados. É com essa premissa que a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal da Educação (SMED), vem consolidando a implantação das Bebetecas Antirracistas no cotidiano da Educação Infantil da Rede Municipal.
O projeto, que teve seu marco inicial em 2024, com a experiência da Bebeteca Antirracista Curumim, avança agora para uma nova etapa de expansão territorial. Com a publicação do Edital nº 02/2026, a iniciativa alcança todas as dez Gerências Regionais de Educação (GREs) da capital baiana, destinando recursos para que instituições selecionadas estruturem mobiliários, brinquedos e acervos literários voltados, especialmente, para bebês e crianças pequenas (de 0 a 5 anos).
Em entrevista exclusiva para o CORREIO, Neurilene Martins Ribeiro, coordenadora da Coordenadoria de Educação Infantil (CEI/SMED), detalha os pilares pedagógicos, a seleção dos materiais, o papel da formação docente e o envolvimento das comunidades na consolidação dessa política pública.
A motivação para estruturar espaços de leitura focados no antirracismo desde o berçário fundamenta-se em diagnósticos pedagógicos e na literatura científica sobre infância e relações raciais. As pesquisas demonstram que, muito cedo, os bebês e as crianças pequenas percebem diferenças de tom de pele, texturas de cabelo e traços físicos, aprendendo socialmente os significados atribuídos a essas distinções.
“Em Salvador, cidade de maioria negra e profundamente marcada pelas matrizes africanas, é fundamental assegurar que bebês e crianças encontrem nos livros, brinquedos, imagens, narrativas e experiências escolares referências positivas de si, de suas famílias, de seus territórios e de suas ancestralidades”, destaca Neurilene Martins Ribeiro.
Acervo antirracista
A gestora ressalta que a Bebeteca não substitui os cantos de leitura tradicionais das unidades escolares, mas sim amplia a intenção pedagógica. A proposta está em sintonia com o Programa Nossa Rede – Educação Infantil e com o Referencial Curricular Municipal, que colocam o pertencialismo, a diversidade e a valorização das culturas afro-brasileiras e indígenas no centro da experiência escolar.
Diferente do que muitos imaginam, a curadoria de um acervo antirracista para a primeira infância não se resume a livros teóricos ou explicativos “sobre o racismo”. O foco primário está no protagonismo, na ludicidade e no afeto.
A seleção de materiais promovida pela SMED orienta-se por critérios estéticos e literários bem definidos:
Protagonismo Plural: Crianças negras retratadas em papéis ativos, brincando, imaginando, convivendo com suas famílias e explorando o mundo de forma não estereotipada.
Diversidade de Autoria: Priorização de obras escritas e ilustradas por autores negros e indígenas.
Materialidade e Brinquedos: Bonecas, bonecos, jogos e imagens que contemplem a diversidade de tons de pele, cabelos e feições.
“Para as crianças negras, essas representações favorecem a identidade, a autoestima e o pertencimento. Para todas as crianças, ampliam repertórios e contribuem para relações baseadas no reconhecimento e no respeito às diferenças”, explica a coordenadora.
Formação continuada
Além do investimento na infraestrutura física e nos acervos, a estratégia da SMED coloca a formação dos profissionais da educação como ponto central para a sustentabilidade da política. O objetivo é assegurar que os livros e brinquedos sejam ativados por meio de uma mediação pedagógica intencional e afetuosa.
As ações formativas oferecidas pela secretaria dialogam com os campos de experiências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — especialmente “O eu, o outro e o nós” e “Escuta, fala, pensamento e imaginação” — e apoiam-se em referências teóricas como Bárbara Carine (Como ser um educador antirracista), Eliane Cavalleiro, Maria Aparecida Silva Bento e Chimamanda Ngozi Adichie.
A implementação também respeita a autonomia pedagógica de cada creche e pré-escola municipal. Cada unidade escolar poderá territorializar suas práticas, integrando a Bebeteca ao seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) a partir da história de seu bairro e da comunidade local.
Conexão com as famílias
Outro eixo estruturante das Bebetecas Antirracistas é a abertura para a participação ativa das famílias e das lideranças comunitárias. Inspirada nas contribuições do educador colombiano Bernardo Toro, a política busca aproximação entre a escola e os saberes populares dos territórios soteropolitanos.
A rede municipal já utiliza ferramentas como os Álbuns das Famílias para registrar memórias e vínculos. Nas Bebetecas, essa integração se amplia com a presença de moradores, artistas locais e mestres da cultura popular em rodas de conversa, contações de histórias e brincadeiras tradadas no ambiente escolar.
As dez unidades contempladas pelo Edital nº 02/2026 passam a representar um ponto de consolidação da experiência iniciada com a unidade Curumim. O monitoramento dessas experiências pelas dez GREs permitirá à SMED produzir diagnósticos e avaliar futuras expansões, a depender do planejamento e da disponibilidade orçamentária da pasta.
Para a CEI, no entanto, o impacto mais duradouro da medida ultrapassa a criação dos espaços físicos. “Mais do que ampliar espaços físicos, o legado pretendido é fortalecer na Rede uma concepção: a educação antirracista não é uma ação paralela ou uma atividade de calendário; é dimensão constitutiva de uma Educação Infantil comprometida com qualidade, equidade e com o direito à felicidade nas infâncias”, conclui Neurilene Martins Ribeiro.
Com informações do site “Correio 24 horas”.