A Central das Creches do Brasil criticou a proposta de voucher-creche apresentada pelo candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro e cobrou explicações sobre a capacidade de atendimento da rede privada e o financiamento da medida. Para o presidente da entidade, Clériston Silva, a promessa não apresenta uma solução compatível com a dimensão do problema: segundo estimativa da Central, 2,5 milhões de crianças de zero a cinco anos estão fora das creches públicas por falta de vagas.
A proposta do candidato prevê oferecer um voucher para que famílias matriculem os filhos na rede privada onde não houver vaga pública. A medida integra as propostas educacionais de Flávio Bolsonaro, conforme levantamento publicado pela Agência Brasil nesta quinta-feira (15).
Clériston questiona como a iniciativa seria executada nos municípios e exige que a campanha informe quantas vagas particulares poderiam ser utilizadas, onde estão localizadas e quais recursos sustentariam o benefício.
“É uma falsa promessa. Não basta anunciar um voucher sem explicar onde essas crianças serão atendidas e de onde virá o dinheiro. É preciso falar a verdade sobre o cenário da educação infantil e tratar as famílias com seriedade e responsabilidade”, afirma.
O presidente classifica a divulgação da proposta como “fake news”, por considerar que ela cria uma expectativa de atendimento sem demonstrar condições de execução. A classificação expressa a avaliação da entidade, que questiona a viabilidade da promessa eleitoral.
Na avaliação de Clériston, a rede particular não dispõe de vagas suficientes para absorver a demanda apontada pela Central. Ele sustenta que a distribuição das unidades pelo território brasileiro também precisa ser considerada, especialmente nas periferias e nos municípios onde as famílias já enfrentam dificuldades para conseguir atendimento.
“A mãe precisa saber em qual creche vai deixar o filho, em que condições e com qual garantia de continuidade. As famílias não podem continuar sendo iludidas por promessas que não explicam como vão sair do papel”, declara.
Segundo o presidente, a Central procurou a equipe de marketing da campanha para apresentar seu diagnóstico e sugerir alternativas para a educação infantil, mas não conseguiu abrir o diálogo pretendido. Clériston cobra espaço para que organizações com atuação na área possam contribuir com propostas e discutir metas concretas.
“Queremos apresentar o cenário que acompanhamos e mostrar caminhos possíveis. A educação infantil precisa de planejamento, investimento e compromisso com resultados. Não pode ser usada apenas como discurso de campanha”, ressalta.
Como alternativa para ampliar a oferta, a entidade apresenta o Programa Nacional de Combate à Falta de Vagas em Creches Públicas do Brasil (PNCB), criado, segundo a Central, em 2025. A iniciativa tem como meta viabilizar 13,5 mil novas creches públicas nos 26 estados e no Distrito Federal até o fim de 2035, com apoio e investimentos do setor privado.
De acordo com informações fornecidas pela instituição, mais de 3,8 mil prefeituras assinaram termos de cooperação técnica para participar do programa. A Central também informa que empresas envolvidas na iniciativa já realizaram visitas a terrenos, sondagens e procedimentos para obtenção de alvarás em parte dos projetos. O início das obras depende da liberação de recursos e do cumprimento das etapas necessárias em cada localidade.
Clériston reconhece que o programa enfrenta dificuldades para avançar no ritmo pretendido, mas afirma que técnicos, especialistas e colaboradores seguem trabalhando para alcançar a meta estabelecida.
“Temos um planejamento e estamos trabalhando para entregar resultados até 2035. Queremos que o próximo presidente, seja qual for o eleito, olhe para a primeira infância e escute quem conhece essa realidade”, afirma.
Para a Central, enfrentar a falta de vagas exige uma reparação social urgente. A entidade destaca que o acesso à educação infantil contribui para o desenvolvimento das crianças, fortalece a proteção social e permite que mães e responsáveis tenham melhores condições de trabalhar e gerar renda.
“A criança não pode esperar o tempo da conveniência política. Enquanto a vaga não chega, muitas famílias ficam sem apoio e crianças permanecem expostas a situações de vulnerabilidade. O Brasil precisa de governantes que assumam compromissos reais com a primeira infância e tenham responsabilidade com aquilo que prometem”, conclui Clériston Silva.