A dificuldade de acesso à creche ainda impacta diretamente a vida profissional de milhões de mulheres no Brasil. Sem vagas suficientes ou com jornadas incompatíveis com o horário de trabalho, muitas mães precisam recorrer a soluções improvisadas para conseguir permanecer no mercado.
O cenário atinge principalmente mães solo, grupo que já ultrapassa 11 milhões de mulheres no país. Além da responsabilidade financeira, elas acumulam tarefas domésticas e cuidados com os filhos, enfrentando mais obstáculos para manter empregos estáveis e ampliar a renda familiar.
Segundo levantamentos citados pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV-IBRE), o número de mães solo cresceu de 9,6 milhões para 11,3 milhões entre 2012 e 2022. Em uma década, aproximadamente 1,7 milhão de mulheres passaram a viver nessa condição.
Maternidade e desigualdade social
Especialistas relacionam o aumento das famílias monoparentais femininas a fatores como abandono paterno, separações e desigualdade na divisão dos cuidados com os filhos.
Na prática, muitas mães solo acumulam trabalho, tarefas domésticas e cuidado infantil, além de enfrentarem mais dificuldades para acessar empregos estáveis, creches e redes de apoio. A maioria dessas mulheres é negra, o que também evidencia o impacto das desigualdades sociais e raciais no país.
Falta de creche compromete permanência no emprego
A ausência de vagas em creches se tornou um dos principais obstáculos para a permanência das mulheres no mercado de trabalho. De acordo com o Censo Escolar 2025, apenas 41,8% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas em creches, índice ainda abaixo da meta nacional de 50% para essa faixa etária.
Mesmo quando há acesso à educação infantil, a jornada oferecida nem sempre acompanha a rotina de trabalho das famílias. Pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a educação infantil pode funcionar em período parcial de quatro horas diárias ou em período integral de sete horas. Já a jornada padrão de trabalho formal no Brasil é de oito horas diárias.
Na prática, muitas mães enfrentam dificuldades justamente no intervalo entre o fim do horário escolar e o término do expediente profissional. Sem rede de apoio familiar, a solução acaba sendo improvisada com ajuda de avós, vizinhos, cuidadoras, diaristas ou babás.
Diferença de renda amplia desigualdade
A renda familiar influencia diretamente o acesso ao cuidado infantil. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, crianças de famílias com maior renda frequentam mais creches e escolas do que as de baixa renda, que dependem principalmente de apoio informal.
O impacto também aparece no mercado de trabalho: no quarto trimestre de 2023, 65,2% das mães estavam empregadas, contra 73,2% das mulheres sem filhos, segundo análise do FGV-IBRE. Os dados mostram que o cuidado infantil ainda recai majoritariamente sobre as mulheres.
Trabalho doméstico e informalidade
A falta de creches e de rede de apoio também impulsiona o trabalho doméstico no Brasil. Segundo a PNAD Contínua, cerca de 6 milhões de pessoas atuavam no setor em 2024, muitas delas contratadas para auxiliar no cuidado infantil.
Grande parte dessas trabalhadoras também são mães e enfrentam dificuldades semelhantes para conciliar trabalho e cuidado com os filhos. Além disso, a informalidade ainda predomina no setor, e mais de três quartos das domésticas seguem sem carteira assinada, de acordo com o DIEESE.
Política Nacional de Cuidados ainda enfrenta desafios
Em dezembro de 2024, o Brasil sancionou a Política Nacional de Cuidados, iniciativa que reconhece oficialmente a importância do cuidado infantil e doméstico como tema social e econômico. Apesar disso, especialistas apontam que a implementação prática da política ainda depende de regulamentação, investimentos e expansão de serviços públicos.
Os dados sobre acesso à creche e participação feminina no mercado de trabalho mostram que o desafio permanece grande. Enquanto a oferta de cuidado infantil não acompanha a realidade das famílias brasileiras, milhões de mães seguem conciliando trabalho e maternidade com soluções improvisadas e sobrecarga diária.
Com informações do site “Educa Mais Brasil”.