A inclusão da computação na educação básica tem ganhado cada vez mais espaço nas escolas brasileiras. Com a implementação das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a área, gestores e professores vêm buscando formas de inserir conteúdos como programação, pensamento computacional e cidadania digital na rotina dos estudantes desde os primeiros anos do Ensino Fundamental.
Mais do que a adoção de novas tecnologias, esse processo depende do planejamento da gestão escolar, responsável por organizar o currículo, incentivar a formação dos docentes e criar condições para que essas competências sejam desenvolvidas em sala de aula de forma integrada às demais disciplinas.
O pensamento computacional, por exemplo, vai além da programação. Trata-se da capacidade de resolver problemas de maneira lógica, identificar padrões, organizar informações e construir soluções passo a passo. Essas habilidades podem ser aplicadas em diferentes áreas do conhecimento, como Matemática, Língua Portuguesa e Ciências, além de fazerem parte das situações do cotidiano.
Nesse cenário, plataformas educacionais têm auxiliado escolas públicas e privadas na implementação das diretrizes da BNCC. É o caso da ubbu, ferramenta criada em Portugal e presente em mais de 20 países, que oferece conteúdos voltados para programação, resolução de problemas, competências digitais e cidadania digital por meio de jogos, vídeos, atividades interativas e planos de aula.
O material foi desenvolvido para apoiar professores, inclusive aqueles que nunca tiveram contato com a área da computação. A proposta é oferecer uma sequência estruturada de atividades ao longo do ano letivo, reduzindo a necessidade de planejamento e permitindo que os docentes aprendam junto com os alunos durante o desenvolvimento das aulas.
A integração da computação ao currículo ainda enfrenta desafios relacionados à formação dos profissionais da educação e à infraestrutura das escolas. Apesar disso, iniciativas como essa mostram que é possível trabalhar esses conteúdos sem a necessidade de criar uma disciplina específica, seguindo a proposta interdisciplinar prevista pela própria BNCC.
Estudos realizados por instituições portuguesas também apontam resultados positivos da utilização da plataforma. Pesquisas indicaram avanços na alfabetização digital dos estudantes, além de melhorias no desempenho em matemática e no desenvolvimento do raciocínio lógico. Outro diferencial é que a plataforma foi desenvolvida para funcionar em computadores com configurações mais simples, realidade presente em muitas escolas públicas brasileiras.
Na prática, o pensamento computacional também vem sendo utilizado como ferramenta para discutir temas sociais. Na Escola SEB AZ, em Brasília (DF), o professor Daniel Barbosa desenvolve atividades com turmas do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental utilizando a programação para estimular o raciocínio lógico e trabalhar conteúdos previstos na BNCC.
Sem formação específica em computação, Daniel conta que iniciou o trabalho apoiando-se nos recursos oferecidos pela plataforma e em sua familiaridade com a tecnologia. Com o passar do tempo, passou a adaptar as atividades à realidade dos alunos, incorporando exemplos do cotidiano e ampliando as possibilidades de aprendizagem.
Entre as experiências desenvolvidas em sala de aula está uma atividade realizada durante o Dia Internacional da Mulher. Utilizando blocos de programação, os estudantes precisavam reorganizar personagens para compreender, de forma prática, a diferença entre igualdade e equidade. A dinâmica permitiu que conceitos relacionados à inclusão e à justiça social fossem trabalhados de maneira lúdica, mostrando que a programação pode dialogar com diferentes temas além da tecnologia.
Segundo o professor, a experiência também fortaleceu sua prática pedagógica, proporcionando mais segurança para criar novas atividades e integrar a computação a projetos sobre cidadania, meio ambiente, leitura e escrita.
Experiência semelhante acontece na Escola Nossa Senhora da Soledade, em Paulista (PE). O professor Alejandro Silva atua com turmas do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, conciliando as aulas de Matemática com o ensino de tecnologia.
Ele relata que o contato com a programação começou durante sua formação universitária, mas foi na escola que passou a utilizar uma plataforma estruturada para todas as séries. Nas turmas iniciais, as atividades são desenvolvidas de forma mais lúdica, utilizando jogos e desafios que despertam o interesse das crianças. Já entre os alunos mais velhos, o foco está na construção de soluções por meio da programação em blocos e no desenvolvimento do pensamento lógico.
Para Alejandro, a integração entre Matemática e computação acontece de forma natural, já que diversos conteúdos, como coordenadas, ângulos e sequência lógica, aparecem tanto nas atividades matemáticas quanto nos exercícios de programação.
Mesmo utilizando recursos digitais, o professor ressalta que o pensamento computacional também pode ser trabalhado fora das telas. Em muitas aulas, ele utiliza situações do cotidiano para demonstrar como um algoritmo depende de instruções organizadas e bem definidas, aproximando os conceitos da realidade dos estudantes.
As experiências desenvolvidas em diferentes regiões do país mostram que a implementação da computação na educação básica depende da combinação entre planejamento pedagógico, apoio institucional, infraestrutura e formação docente. Quando esses fatores caminham juntos, a tecnologia deixa de ser apenas um recurso e passa a contribuir para o desenvolvimento de habilidades essenciais para a aprendizagem e para a formação cidadã das crianças e adolescentes.